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Sábado, Julho 05, 2008
http://www.bodisatva.org/entrevistas/e.php?subaction=showfull&id=1072971104&archive=&start_from=&ucat=21&
postar dps..
freeyourmind - 3:04 PM
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Sábado, Dezembro 22, 2007
MOMENTO DECISIVO: O FIM DO MEDO
William Irwin
O terceiro elemento da profecia se relaciona claramente à morte e à sobrevivência. Alguém deve morrer, e alguém deve sobreviver. No mundo da Matriz, regido pelo princípio da separação, a lógica de ganhar/perder é uma lei de ferro. O Oráculo dá a Neo essa notícia infeliz: "Sinto muito, jovem. Você tem o dom, mas parece que está esperando por alguma coisa". Neo: "O quê?" Oráculo: "Sua próxima vida, talvez. Quem sabe? Essas coisas são assim".
A profecia do Oráculo é cumprida ao pé da letra. Neo salva a vida de Morpheus, perde a sua. e depois retorna em outra vida, como "o Escolhido". Como e por que essa profecia é cumprida é a chave para acompreensão do filme.
No processo de salvar Morpheus. Neo se vê diante de um Agente aparentemente invulnerável e todo-poderoso. Apesar de seu treinamento na Construção, que lhes dá tremendo poderes na Matriz, os tripulantes do Nabucodonosor reconhecem uma regra extrema, baseada em medo: se você vê um agente, a única coisa que pode fazer é correr. Esse é o conselho "realista" de Cypher a Neo, somado à descrença de Cypher quanto a Neo ser o salvador anunciado. Assim, o momento decisivo dramático no filme é quando Neo deliberadamente enfrenta o Agente Smith. Ele fez essa escolha; e agora a assumirá, ainda que tenha de enfrentar a morte. Neo cumpre seu destino em completa liberdade, escolhendo salvar outra pessoa em vez de preservar a própria existência, como um corpo vulnerável e separado.
Agindo assim, Neo supera o medo fundamental que governa o poder da Matriz tanto no mundo da realidade virtual como no assim chamado mundo real dos corpos físicos. A mesma regra básica se aplica a cada mundo. Se você acredita que pode morrer, mesmo no mundo de ilusão, morrerá no mundo físico. A vitalidade do corpo físico depende da crença mental no poder derradeiro da morte. Essa é a regra básica que regula a Matriz. O seu poder e a sua realdiade dependem daquilo em que você aredita; as suas crenças são em última instância governadas pelo temor da morte.
Resta apenas um passo no desenrolar do destino de Neo. É necessário abandonar a crença na morte. Quando o corpo de Neo´pára de funcionar, Morpheus diz: "Não pode ser". Morpheus não pode acreditar na morte de Neo, embora Neo, segundo todas as regras da assim chamada realdiade física, esteja morto. Trinity, porém, vai mais adiante. Falando com o corpo morte de Neo, ela se dirige ao seu espírito vivo: "Neo, não tenho mais medo. O oráculo me disse que eu me apaixonaria
, e que o homem por quem eu me apaixonasse seris o Escolhido. Então, você não pode estar morto. Não pode. Porque eu amo você. Está me ouvindo? Eu amo você." Graças ao amor de Trinity e à sua recusa em areditar na morte, Neo volta à vida. De acordo com as profecias do Oráculo, Neo retorna em sua próxima vida como o Escolhido.
Matrix - Bem Vindo ao Deserto do Real
freeyourmind - 4:38 PM
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TEMOR E TREMOR
William Irwin
O mundo da Matriz é um mundo de medo e temor. Ao se considerar um ser físico separado, vulnerável às forças poderosas do universo físico e social, cada indivíduo deve sentir medo. O medo fundamental é o medo da morte, a extinção dessa frágil existência física. O temor da morte pressupõe que o indivíduo considera sua existência física pessoal a realidade definitiva.
De acordo com as estruturas de crenças da Matriz, nunca podemos fugir do medo. Na sequência inicial do filme, o primeiro passo de Neo para a liberdade o coloca perigosamente na beirada do edifício onde ele trabalha. E aí, ele deixa o temor governar suas ações. A segunda vez que ele enfrenta o medo de cair ocorre na construção da realidade virtual. Ele está sendo iniciado no poder de manipular a ilusão. Está descobrindo a excitação de viver conscientemente na ilusão. O segredo para descobrir o poder pessoal é liberar todo o medo. "Você tem de se desapegar, Neo", diz Morpheus. "Medo dúvida e descrença. Liberte sau mente." Neo cai no abismo, somente para descobrir a natureza ilusória de seus temores.
No entanto, na forma física, Neo ainda sangra. Por quê? Neo: "Achei que não era real". Morpheus: "Sua mente torna isso real". Neo: "Se você é morto na Matriz, morre aqui?" Morpheus: "O corpo não pode viver sem a mente".[...] A distinção inicial de Neo entre a realidade da vida fora da Matriz e a ilusão dentro dela é simplista.
Aqueles que têm consciência de uma realidade fora da Matriz podem se tornar mais livres e poderosos dentro dela. Mas a existência na Matriz, por sua vez, afeta a existência fora. Mesmo fora da Matriz, o corpo depende das crenças da mente.
O segredo para o cumprimento do destino de Neo consiste em sua rejeição do temor da morte. Neo cumpre esse destino quando escolhe abandonar a própria vida por Morpheus, como profetizara o Oráculo.
Em vez de expor um destino determinista, o Oráculo lhe dá uma escolha: a vida dele ou a de Morpheus. "Você terá de escolher. De um lado, você tem a vida de Morpheus; do outro, a sua. Um de vocês vai morrer. Qual dos dois, cabe a você decidir."
Os elementos centrais na profecia do Oráculo são os postulados da moralidade. Primeiro, há o postulado da liberdade. Originalmente, Neo rejeita a idéia de destino porque quer ter controle de sua vida. Quer sempre ter a liberdade de escolha. O cumprimento do destino de Neo é apresentado aqui como uma questão de escolha. Como sempre tem sido o caso, Neo pode escolher diferente. Ele podia ter resolvido tomar a pílula azul e viver dentro das certezas relativas da vida onírica na Matriz. A escolha da pílula vermelha, e da verdade, traz o risco inerente de medos imprevistos e a hostilidade dos poderes controladores da existência. Agora o oráculo lhe diz que ele deve escolher entre salvar a si mesmo ou salvar Morpheus.
Em segundo lugar, na profecia do Oráculo, há uma crença em nosso potencial, nosso poder. Segundo o pensamento kantiano, precisamos sustentar nossa escolha moral com a crença no poder de sua realização - mesmo diante de todas as aparências contrárias. O postulado de Deus é aquele que une nossa escolha moral pelo Maior Bem à crença no poder de alcançar essa meta.
Pode parecer inicialmente que a crença num poder Divino de realização, ou num salvador, é uma admissão de que somos impotentes. Mas para Kant, a moralidade exige que nós mesmos sejamos capazes de cumprir nosso dever moral. Segue-se daí que o Deus ou o homem-Deus ("o Escolhido") que nós postulamos não deve ser considerado um ser isolado que realiza o milagre em nosso lugar. Deus deve ser visto como uma extensão de nós mesmos, quando transcendemos as limitações da separação física. Na dinâmica do filme, há um desenvolvimento da crença no salvador exerno para a crença em nosso próprio poder semelhante ao Deus, como humanidade unida, de salvar a nós mesmos. Esse é o nosso verdadeiro "potencial" interior. Essa noção se torna evidente na fala final do "Escolhido", no fim do filme.
Matrix - Bem Vido o Deserto do Real
freeyourmind - 3:59 PM
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Domingo, Maio 20, 2007
EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE
Edgar MORIN
Quando dizemos: "É complexo, é muito complexo!", com a palavra "complexo" não estamos dando uma explicação, mas sim assinalando uma dificuldade para
explicar. Designamos algo que, não podendo realmente explicar, vamos chamar de "complexo". Por isso é que, se existe um pensamento complexo, este não será
um pensamento capaz de abrir todas as portas (como essas chaves que abrem caixas-forte ou automóveis), mas um pensamento onde estará sempre presente a
dificuldade.
No fundo, gostaríamos de evitar a complexidade, gostaríamos de ter ideias simples, leis simples, fórmulas simples, para compreender e explicar o que
ocorre ao nosso redor e em nós. Mas, como essas fórmulas simples e essas leis simples são cada vez mais insuficientes, estamos confrontados com o desafio da
complexidade. Um desafio ao qual é necessário responder, em primeiro lugar, tratando de assinalar o que quer dizer "complexidade". E isto já nos expõe um
problema: "existe uma complexidade? [ou] complexidades.
[...]O exemplo mais belo provém da meteorologia e é conhecido pelo nome de "efeito borboleta": uma borboleta que bate suas asas na Austrália pode, por uma
série de causas e efeitos postos em movimento, provocar um furacão em Buenos Aires, por exemplo. Essa complexidade tem a ver com o que Pascal havia visto muito
bem.
Pascal disse há já três séculos: "Todas as coisas são ajudadas e ajudantes, todas as coisas são mediatas e imediatas, e todas estão ligadas entre si por um laço que
conecta umas às outras, inclusive as mais distanciadas. Nessas condições,agregava Pascal, considero impossível conhecer o todo se não conheço as partes"Esta é a
primeira complexidade; nada está realmente isolado no Universo e tudo está em relação. [..]
Retomo a frase de Pascal para resumi-la sob uma forma caricatural: "Tudo está em tudo e reciprocamente". O que significa: "Desanimem-se, porque vão fundir-
se na confusão mais completa!". E sem dúvida essa frase: "Tudo está em tudo e reciprocamente" pode ser elucidada, com a condição de que se aceite a seguinte
proposição: não só uma parte está no todo, como também o todo está na parte. Como é isso? Vejamos alguns exemplos: cada célula de nosso corpo é uma parte que
está no todo de nosso organismo, mas cada célula contém a totalidade do patrimônio genético do conjunto do corpo, o que significa que o todo está também na parte.
Cada indivíduo numa sociedade é uma parte de um todo, que é a sociedade, mas esta intervém, desde o nascimento do indivíduo, com sua linguagem, suas normas,
suas proibições, sua cultura, seu saber; outra vez, o todo está na parte. Com efeito, "tudo está em tudo e reciprocamente" ". Nós mesmos, do ponto de vista cósmico,
somos uma parte no todo cósmico: as partículas que nasceram nos primeiros instantes do Universo se encontram em nossos átomos. O átomo de carbono necessário
para nossa vida formou-se num sol anterior ao nosso. Ou seja, a totalidade da história do cosmos está em nós, que somos, não obstante, uma parte pequena, ínfima,
perdida no cosmos. E sem dúvida somos singulares, posto que o princípio "O todo está na parte" não significa que a parte seja um reflexo puro e simples do todo.
Cada parte conserva sua singularidade e sua individualidade, mas, de algum modo, contém o todo.
Esta é uma problemática sumamente vasta, e a dificuldade que temos para entrar nela supõe um fenômeno histórico e cultural no qual nos encontramos. Na
escola aprendemos a pensar separando. Aprendemos a separar as matérias: a História, a Geografia, a Física, etc. Muito bem! Mas se olhamos melhor vemos que a
química, num nível experimental, está no campo da microfísica. E sabemos que a história sempre ocorre em um território, numa geografia. E também sabemos que a
geografia é toda uma história cósmica através da paisagem, através das montanhas e planícies... Fica bem distinguir estas matérias, mas não é necessário estabelecer
separações absolutas. Aprendemos muito bem a separar. Separamos um objeto de seu ambiente, isolamos um objeto em relação ao observador que o observa.
Nosso pensamento é disjuntivo e, além disso, redutor: buscamos a explicação de um todo através da constituição de suas partes. Queremos eliminar o problema da
complexidade. Este é um obstáculo profundo, pois obedece à fixação a uma forma de pensamento que se impõe em nossa mente desde a infância, que se
desenvolve na escola, na universidade e se incrastra na especialização; e o mundo dos experts e dos especialistas manejam cada vez mais nossas sociedades.
Bem, há um problema grave, porque sabemos que os especialistas são excelentes para resolver os problemas que se propõem em sua especialidade com a condição de
que não surjam interferências com fatores pertencentes a especialidades vizinhas e com a condição de que não se apresente nada novo nos problemas expostos.[...]
Se temos gravadas em nós essas formas de pensamento que nos levam a reduzir, a separar, a simplificar, a ocultar os grandes problemas, isto se deve ao fato de que
reina em nós um paradigma profundo, oculto, que governa novas ideias sem que nos demos conta.
"[...] Devemos, pois, trabalhar com a desordem e com a incerteza, e damo-nos conta de que trabalhar com a desordem e a incerteza não significa deixar-se
submergir por elas; é, enfim, colocar à prova um pensamento energético que os olhe de frente.[...] As sociedades humanas toleram uma grande porção de
desordem; um aspecto dessa desordem é o que chamamos liberdade. Podemos então utilizar a desordem como um elemento necessário nos processos de criação e
invenção, pois toda invenção e toda criação se apresentam inevitavelmente como um desvio e um erro com respeito ao sistema previamente estabelecido. Vemos aqui
como é necessário pensar a complexidade de base de toda realidade vivente."
(Novos Paradigmas, cultura e subjetividade - Organizado por Dora Fried Schnitman)
freeyourmind - 5:07 PM
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Quarta-feira, Julho 12, 2006
Impermanência
Do livro Tibetano do Viver e do Morrer
sogyal rimpoche
Levar a vida a sério não quer dizer passar a vida inteira meditan-
do, como se vivêssemos nas montanhas do Himalaia ou nos velhos
dias do Tibete.
No mundo moderno temos que trabalhar e ganhar nosso pão, mas
não nos devemos enredar em uma existência das-oito-às-seis
onde vivemos sem noção do significado mais profundo da vida.
Nossa tarefa é chegar a um equilíbrio, encontrar um caminho do
meio, aprender a não nos estendermos além do possível em ativi-
dades e preocupações irrelevantes, e simplificar mais, e mais
nossas vidas. A chave para encontrar um equilíbrio feliz na vida mo-
derna é a simplicidade. Assim, a disciplina é fazer o que é apropri-
ado ou justo, isto é, em uma época excessivamente complexa,
simplificar nossas vidas.A paz de espirito surgirá daí.
Haverá mais tempo para tratar das coisas do espírito e do conheci-
mento que só a verdade espiritual pode trazer, e que podem ajudar
a enfrentar a morte.
Infelizmente só uns poucos de nós fazem isso. Talvez agora
devamos perguntar a nós mesmos: ¿O que de fato consegui
realizar na vida?¿ Com isso quero perguntar: o que de fato
compreendemos sobre vida e morte?
Se observarmos nossa vida, veremos claramente quantas tarefas
sem importância, as assim chamadas -responsabilidades-, se acu-
mulam para preenchê-la. Um mestre chega a compará-las a fazer
faxina num sonho. Dizemos a nós mesmos que queremos empre-
gar o tempo nas coisas importantes da vida, mas nunca temos
esse tempo. Mesmo no simples levantar-se pela manhã, há
tanto o que fazer: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, esco-
var os dentes, alimentar o cachorro ou o gato, lavar a louça da
véspera, descobrir que o açúcar ou o café acabou, sair para
comprá-lo, fazer o café da manhã ¿ a lista é interminável.
Aí há roupa para arrumar, escolher, passar e dobrar de novo.
E o que dizer do cabelo ou da maquiagem?
Incorrigíveis, vemos nossos dias se encherem de telefone-
mas e projetos insignificantes, com tantas responsabilidades
- ou devemos chamá-las -"irresponsabilidades"
Nossa vida parece viver-nos, possuir seu próprio ímpeto bizarro
de arrastar-nos; no fim sentimos que não temos mais escolha
ou controle sobre ela. As vezes acordamos a noite banhados
de suor, perguntando a nós mesmos: - O que estou fazen-
do com minha vida"¿ Mas nossos temores só duram até o
café da manhã. Logo, pomos a pasta sob o braço e começamos
tudo de novo.
Penso no santo indiano Ramakrishna, que disse a um dos
seus discípulos: ¿Se usasse para fazer prática
espiritual um décimo do tempo que dedica a distrações
como conquistar mulheres ou ganhar dinheiro, você se em poucos
anos!
Continuar pensando obsessivamente nessas coisaspode
tornar-se um fim em si mesmo e uma distraçãosem sentido.
A sociedade moderna me parece uma celebração de todas
as coisas que nos afastam da verdade. Esse samsara moderno
alimenta-se de ansiedade e depressão que ele próprio fomenta,
e para as quais nos treina e cuidadosamente nutre com um
mecanismo de consumo que precisa manter-nos ávidos para
continuar funcionando. O samsara é altamente organizado,
versátil e sofisticado. Investe sobre nós de todos os lados com
sua propaganda, criando à nossa volta uma cultura de
dependência quase inexpugnável. Quanto mais tentamos
escapar, mais nos sentimos enredar nas armadilhas que ele
tão engenhosamente nos prepara. Como dizia no século XVIII
o mestre tibetano Jikmé Lingpa: ¿Hipnotizados pela mera
variedade de percepções, os seres vagam infinitamente
perdidos no círculo vicioso do samsara.
Obcecados, então, por falsas esperanças, sonhos e
ambições que nos prometem a felicidade mas conduzem
somente à miséria, somos como forasteiros rastejando num
deserto sem fim, morrendo de sede. E tudo que esse
samsara nos oferece para beber é um copo dagua salgada,
com o propósito de deixar-nos ainda mais sedentos.
freeyourmind - 5:30 PM
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Sábado, Julho 08, 2006
Os oito dharmas mundanos
Khyentse
[..]
"Oito coisas fazem uma pessoa ficar fraca"
[1] querer ser louvado;
[2] não querer ser criticado;
[3] querer ganhar;
[4] não querer perder;
[5] querer ser feliz;
[6] não quere ser infeliz;
[7] querer ser famoso;
[8] não querer ser infame ou ignorado.
Estes são muito importantes. Devemos memorizá-los, de modo que de tempos em tempos podemos verificar se estamos caindo em uma destas armadilhas, ou até mesmo em todas elas. Eu faço isso. Isso é o núcleo básico da minha prática, verificar se estou caindo em qualquer uma destas armadilhas. São fáceis de lembrar: louvor e crítica; ganho e perda; prazer e dor; fama e infâmia.
Então, devemos verificar se caímos em qualquer uma destas armadilhas. Eu caio em todas elas, especialmente na primeira, querer ser louvado. Sempre gosto de ser louvado, essa é a minha maior fraqueza. Estou certo de que isto acontece com muitos de nós; palavras pequenas, superficiais, inúteis e ridículas de louvor podem nos fazer realmente, realmente fracos. O mesmo acontece com a crítica; algumas palavras ridículas e insignificantes de crítica podem nos ferir para sempre.
Penso que todos vocês sabem do que estou falando: como gostamos de ganhar, como não gostamos de perder; o quanto amamos a atenção; o quanto não gostamos de ser ignorados... Todas estas são armadilhas. Se cairmos em uma destas armadilhas, nos tornaremos fracos.
[...]
Não quero perder amigos, quero ser louvado, não quero ser criticado, quero ganhar discípulos, quero ter atenção, não quero ser ignorado. Então, o que faço? A fim de obter o que quero e de evitar o que não quero, eu termino massageando o ego de outras pessoas.
Então, se quisermos ser praticantes espirituais, se quisermos ser fortes, precisamos nos exercitar, por assim dizer. Atisha Dipankara nos dá um modo maravilhoso de treinar, chamado lojong. Lojong é uma palavra tibetana que significa "treinamento da mente". O treinamento é basicamente lembrar de nos perguntarmos em qual destas armadilhas estamos caindo.
Vamos retornar à questão anterior, de que tipo de motivação temos. Esse é a linha de fundo de tudo. Estamos sérios quanto a atingir a iluminação? Ou estamos fazendo tudo isto apenas por relaxamento ou cura? Ou talvez porque estamos tendo muitos problemas e obstáculos em nossa vida, e queremos apenas nos recuperar disso? Lembrem-se que isto pode realmente funcionar em certa medida. Se praticarmos o Dharma com este tipo de motivação, podemos realmente obter alguns benefícios mundanos, mas não estaríamos usando o potencial completo do Dharma. Por isso, não estaríamos praticando nem mesmo o Dharma real, mas sim algum Dharma de mentira, falsificado.
Então, nossa motivação é muito importante. Se tivermos este segundo tipo de motivação, a motivação de praticar o caminho espiritual a fim de atingir a onisciência ou iluminação, então temos de ter um caminho completo. Agora, o que faz um completo caminho? Um caminho completo tem de ter visão, meditação e ação. Por favor, tomem nota disto, isto é muito importante. [...]Se não tiverem uma visão, ele não os conduzirá a muitos lugares; pode curar alguns ferimentos ou temporariamente matar a dor com algum analgésico. A visão é muito importante. A visão determina a meditação e a ação.
[...]
Neste ponto, poderíamos dizer que a nossa visão é ter renúncia. O que queremos dizer com renúncia? Quando assistimos um filme, isso é uma renúncia genuína. Por quê? Porque conforme assistimos o filme, apesar de todos os tipos de coisas acontecerem na tela, sabemos que é apenas um filme, é tudo de mentira. Pode haver relacionamentos amorosos, ou suspense; podemos até mesmo ser levados às lágrimas, mas em algum lugar dentro de nossa mente, sabemos que isto é apenas um filme.
Quando sentimos vontade de ir ao toalete durante o filme, por exemplo, podemos ter a coragem de levar e ir. Não é uma grande coisa, não estamos realmente presos. É por isso que chamamos isto de renúncia __ temos a visão correta quanto a isto. Já que sabemos do aspecto fútil da vida, há uma renúncia genuína. Por outro lado, neste grande filme que chamamos de nossas vidas, poucos de nós temos este tipo de coragem.
Claro que a renúncia não significa que, já que percebemos que isto é um filme, devemos sair do cinema e fazer um grande voto de nunca mais assistirmos um filme novamente. Simplesmente perceber que isto é um filme mudou toda a nossa atitude diante dele. Não temos de parar de assistir. Podemos ainda assistir, mas agora, por causa deste conhecimento, não nos prendemos; ele nãose tornou uma grande coisa. Esse é um tipo de pequena iluminação.
Isto é o que precisamos, mas perceber que isto é um filme é bem difícil. Nós sempre ficamos paralisados. Sempre terminamos pensando que é real. E quando nos sentamos aqui, totalmente absortos no filme, rindo, chorando, completamente perdidos nele, de alguma forma, por causa de nosso bom karma, por causa de nosso mérito, a pessoa ao nosso lado nos dá um tapinha no ombro e diz, "Não se preocupe. É apenas um filme".
Então, agora eu diria, entender o aspecto fútil de nossa vida é a visão. Ter esta visão não significa que temos de nos tornar monges e monjas, ou ir a Kathmandu e viver em uma caverna. Não, o conhecimento é mais importante. O conhecimento de que isto é fútil não significa que vocês devem se demitir do seu trabalho. Vocês ainda devem continuar com o seu trabalho. Se tiverem a oportunidade de se tornarem milionários, então por que não? Vocês devem apensar fazer isto,mas sempre conhecendo a identidade verdadeira, sempre lembrando da realidade da situação.
.Então, torna-se realmente divertido. Assistir um filme, sabendo que é um filme, e ainda experienciando toda a emoção, é divertido. Porque temos controle. A qualquer hora que não tenhamos controle, a qualquer hora que algum outro tiver o controle, não é divertido. Nesta hora temos o controle. Sabemos que é de mentira.
Bem agora, em nossa vida diária, não temos controle, não temos divertimento. Pensamos que tudo o que está acontecendo também é verdade. Apenas pensem sobre os relacionamentos que estamos tendo. Ter um relacionamento é supostamente algo legal que acontece em nossa vida, mas é realmente legal? No momento em que o relacionamento começa, a insegurança começa, a expectativa começa, o medo começa. E nunca terminam, repetem-se todo o tempo: quantas vezes tivemos uma namorada, quantas vezes mudamos de namorados? Sempre parece ser a mesma coisa. Não há o Sr. Correto, a Sr.ª Correta, não há situação correta aqui. Por quê? O problema não é que as situações corretas não surjam. Não é realmente isso. Mas sempre temos uma expectativa, temos esperanças e medos. E esses nos levam a desapontamentos. E até mesmo se acontecer de conseguirmos o que esperamos, então a expectativa não pára. Ele se multiplica. Agora, as expectativas são reforçadas, obtivemos o que queríamos, então esperamos mais, temos até mais expectativas.
Então, o que podemos fazer é desenvolver expectativas sábias. Isto é parte do lojong, parte do treinamento da mente. Quando acordamos, por exemplo, verificamos: "Estamos em boa condição? Estamos felizes? Estamos bem?" Estamos bem, estamos felizes, estamos bem. Então, formamos uma expectativa sábia: "Isto não durará, isto nunca durou antes, isto mudará". E efetivamente a nossa felicidade durará mais por causa disso. E então, quando estivermos atravessando dificuldades, quando tivermos todos estes problemas, todas estas dores de cabeça, pensamos: "Isto não durará. Muitas vezes tive problemas no passado, mas eu os atravessei, eles não duraram, e isto será o mesmo".
Todos têm isto. Os problemas presentes, os problemas que estamos atravessando bem agora, são os maiores problemas, não são? E pensamos que estes serão nossos problemas definitivos e de mais longa duração, mas isso não é verdade. Os problemas que tivemos há cinco anos atrás não são nada se comparados aos que temos agora, e em cinco anos, os problemas de hoje serão insignificantes.
Agora, há a meditação samatha que muitos, muitos mestres nos aconselharam a fazer. Concordo com isso porque o shamatha assenta a fundação. A meditação shamatha é simplesmente fazer nossa mente ser trabalhável, flexível. Bem agora, nossa mente é como um pedaço de madeira, rígido. O shamatha faz nossa mente ser flexível, de modo que possamos fazer o que quer que gostemos.
O principal tópico que estávamos discutindo era o lojong e as oito armadilhas, os oito dharmas mundanos. Então, como meditamos sobre isso? Poderíamos chamar isto de "meditação na ação". Penso que isto é uma prática bem importante, mas às vezes também é bem difícil. Por quê? Novamente, o velho culpado, nossas expectativas. Se olharmos para elas, até mesmo o modo como andamos é baseado em expectativas. Temos um certo jeito de andar, de modo que sejamos louvados, de modo que não sejamos criticados, de modo que ganhemos algo, de modo que não percamos algo, de modo que consigamos atrações, de modo que não sejamos ignorados. Tudo, o modo como caminhamos, o penteado que temos, a camiseta que colocamos nesta manhã... Fazemos isto por causa da expectativa. Não há autenticidade. E quanto não há autenticidade, nos tornamos bem fracos de novo. Nos tornamos vítimas de nossas próprias expectativas e das dos outros.
freeyourmind - 5:35 PM
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Domingo, Julho 02, 2006
MENTE DA ATIVIDADE, NATUREZA DA MENTE
INTRODUÇÃO AO BUDISMO
Uma visão da doutrina budista através dos textos
Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de vários autores e mestres budistas porKarma Tenpa Darghye.
Na tradição budista, fazemos distinção entre compreensão intelectual, experiência instável e realização estável. A compreensão intelectual, como um remendo mal costurado que vai cair com o tempo, é temporária. Se formos adiante em nossa prática, poderemos ter um vislumbre da verdadeira natureza da mente, mas, como a névoa, ele se dissipará. O que buscamos alcançar com nosso trabalho é uma realização imutável como o espaço, que por sua própria natureza nunca se altera.
Quando cresce a nossa compreensão da impermanência e da qualidade ilusória da existência, começamos a observar os fenômenos sem projetar nossas falsas suposições; com o tempo, passamos a reconhecer o estado desperto intrínseco, aberto e nu, como a nossa verdadeira natureza e a verdadeira natureza da realidade.
Para ter acesso a experiência daquilo que é natural, comece reconhecendo a impermanência em cada ação do seu corpo, em cada palavra da sua fala, em cada movimento da sua mente. Ao movimentar sua mão, reconheça na mudança de posição uma demonstração de impermanência. Primeiro, ela estava do lado esquerdo, depois do direito. Com sua respiração, reconheça a Impermanência, à medida que ela vai e vem, vai e vem. Com a prática, o processo intelectual deliberado de olhar para cada coisa e pensar, "Isto é impermanente", evolui para um conhecer natural, espontâneo, da constante manifestação das mudanças. Isso ameniza nossa atitude em relação à realidade; começamos a apreciar a verdade das metáforas do Buda que descrevem os fenômenos como ilusões ou imagens de um sonho, como alucinações, ecos ou arco-íris ¿ aparentes, mas não tangíveis nem corpóreos ¿, como reflexos da lua sobre a água; brilhantes porém não sólidos.
Nossa compreensão convencional está baseada em suposições que foram passadas a nós, suposições que dependem de formas convencionais de percepção. Fomos ensinados a dar nome às coisas, atribuindo-lhes uma realidade que não possuem.
A mente convencional é muito linear, pulando de um pensamento para outro, Podemos nos imaginar como pensadores multifacetados, cujas idéias formam algo como um mosaico, mas somos tão somente seres que mudam muito depressa. Todos os conceitos e pensamentos que surgem na mente, na verdade toda a nossa experiência da realidade, não é muito diferente de desenhos feitos com o dedo sobre a superfície da água. No próprio ato em que uma imagem está sendo criada, ela deixa de existir.
A crença na solidez das nossas experiências produz apego c aversão, os quais, por sua vez, alimentam perpetuamente o fogo do samsara até que a realidade fica parecendo um inferno devorador. Compreender a verdade das nossas experiências é como deixar de pôr lenha na fogueira. As chamas não desaparecem imediatamente, mas sem combustível, o fogo lentamente vai morrendo.
Sem apego e aversão, não somos confundidos pelo jogo de atração e repulsão dos fenômenos. Aí, nessa abertura natural ¿ o espaço claro da mente ao final de um pensamento, antes que o próximo apareça ¿ está o estado desperto.
Grandes praticantes alcançaram a iluminação trazendo contínuamente consciência para seu trabalho. Durante todo o dia, por doze anos, o mestre indiano Tilopa prensou sementes de gergelim para fazer óleo. Com cada movimento, seu estado desperto permanecia inteiramente presente; não escapava para o passado nem para o futuro, não se perdia em vôos da imaginação. O mesmo acontecia com Togtzepa, um praticante que cavava valas: a cada movimento, ele mantinha o estado desperto.
Semelhantemente, muitos dos oitenta e quatro mahasiddhas da Índia, praticantes altamente realizados, exerciam profissões comuns. Enquanto trabalhavam, eles meditavam. Não importava o que faziam. Como repousavam em seu estado desperto, em meio às atividades a que se dedicavam, eles desenvolveram a capacidade de transformar fogo em água, água em fogo, atravessar paredes e voar pelo ar. Em vez de ficarem sujeitos à realidade ordinária, eles se tornaram senhores dela. Evidentemente, a finalidade da meditação não é transformar água em fogo, mas essas capacidades são subprodutos que aparecem naturalmente quando cortamos nosso apego às percepções ordinárias da realidade.
Nós também seremos capazes de transformar rapidamente a mente se trouxermos consciência a todas as nossas atividades. Se você está construindo alguma coisa, mantenha a mente presente a cada movimento do martelo. Não deixe que os pensamentos se interponham. Ao escrever, mantenha sua mente junto de cada movimento da caneta ou toque das teclas do computador. Não deixe que ela fique saltando de um lado para outro.
Seja o que for que estiver fazendo. relaxe a mente. Nesse processo, repousamos suavemente em uma postura de abertura, imersos no que esta acontecendo, totalmente presentes, mas ao mesmo tempo cientes da exibição dos fenômenos. Um adulto que esteja a olhar crianças num parque, nunca perde a noção de que elas estão brincando, O adulto não se fixa, de forma deliberada, na atividade delas, dizendo, "Elas estão brincando, elas estão brincando, elas estão brincando". Há, porém, um reconhecimento, um conhecimento desse fato.
Com freqüência perdemos esse relaxamento da mente quando estamos completamente mergulhados em nosso trabalho; por exemplo, quando ficamos tão envolvidos com alguma coisa que estamos escrevendo, tal como se estivéssemos dentro das palavras. Ao repousarmos a mente, porém, há um pouco mais de espaço. E como estarmos um pouco fora do que está acontecendo, cientes de que é uma manifestação, uma exibição, mas sem nos distanciarmos e criarmos dualidade.
Você pode adotar o estilo de vida de um eremita, abandonar sua preocupação com comida, roupa, riqueza, amigos, família, lar e mudar-se para uma montanha, dedicando-se inteiramente à meditação. Esse é um modo de praticar perfeitamente válido, Dentro do Vajrayana, porém, há um outro modo. Sua vida externa continua com a forma habitual. Você não deixa sua casa, não renuncia a nada, mas nunca se aparta da virtude, nunca se separa do dharma, da intenção de trazer benefícios ou do estado desperto.
Tilopa disse a seu aluno Naropa, "Você é aprisionado não pelas aparências, mas por seu apego às aparências; portanto, corte esse apego, Naropa". Nós nos conservamos presos ao samsara não simplesmente porque temos bens materiais, um posição elevada ou amigos, mas porque nos apegamos a essas coisas.
Às vezes, quando começam a fazer meditação, algumas pessoas me dizem que são um caso perdido, que é impossível controlar seus pensamentos. Eu lhes asseguro que isso é um sinal de melhora. A mente delas sempre foi revolta; acontece apenas que, finalmente, elas estão notando isso. No passado, elas deixavam sua mente vagar livremente, seguindo as correntes de pensamento que surgissem, fossem quais fossem. Agora, porém, que têm maior percepção do que ocorre na mente, elas podem começar a mudar.
Você pode se queixar de que meditação não é fácil. Mas lembre-se de que você está conduzindo sua mente como um cavalo selvagem para dentro do curral do estado desperto. Você terá certeza de que sua prática está dando resultado se não estiver mais tão dominado por suas emoções e confusão, se trouxer para todas as suas ações, onde quer que esteja, uma qualidade de abertura, de relaxamento e uma intenção de compaixão, permanecendo consciente dos movimentos da mente e da natureza de todas as coisas que acontecem à sua volta.
Certa vez, um aluno que estava tendo dificuldade com meditação veio à presença do Buda. Quando o Buda perguntou qual era a profissão dele, o homem respondeu que era músico e tocava alaúde.
O Buda perguntou: "Quando você está pondo as cordas no seu alaúde, você as estica com bastante força ou as deixa bem soltas?".
O homem respondeu, "Nenhuma das duas coisas. Se eu as esticar demais ou deixá-las soltas demais, o tom sairá errado. Tenho que encontrar um ponto de equilíbrio". Com isso, ele havia respondido sua própria pergunta sobre meditação. Quer seja em nossa prática ou em nosso trabalho, precisamos manter um equilíbrio ¿ não ficaremos tensos e apegados demais, nem soltos e desleixados demais.
Conta-se a história de um ótimo lama que tinha um aluno bastante obtuso que fazia perguntas óbvias, mas nunca entendia direito as respostas. Um dia, o professor, com grande frustração, olhou para ele e disse, "Mas você não tem chifres" ¿ querendo dizer, "Você não é uma vaca, você deveria entender o que eu estou dizendo".
O aluno, continuando a não entender, pensou que o professor quisesse dizer que ele deveria ter chifres. Levando isso a sério, entrou em retiro, visualizando, a cada dia, que possuía chifres. Três anos mais tarde, o professor perguntou a um assistente, "O que foi feito daquele meu aluno que não era tão brilhante?" Quando informado de que o aluno estava em retiro meditando, o lama exclamou, "Mas como ele pode estar meditando? Ele não sabe nada. Tragam-no aqui"
Um mensageiro foi então enviado para buscar o aluno. Ao chegar na caverna do retiro, ele espiou pela pequena porta e viu o aluno sentado lá dentro, com um belo par de chifres. O mensageiro chamou, "O seu professor quer vê-lo; venha, por favor".
O aluno se levantou para sair, mas não conseguiu fazer com que aqueles chifres enormes passassem pela pequena porta. Ele disse ao mensageiro, "Por favor, apresente minhas desculpas ao meu professor eu gostaria de ir até ele, mas não consigo sair da caverna por causa dos meus chifres".
O professor, ao ouvir o fato, disse, "Isso é maravilhoso! Diga a ele, agora, para meditar que não tem chifres".
Pela força da sua concentração, o aluno removeu os chifres em sete dias e voltou á presença do lama. Depois de receber instruções adequadas sobre meditação, ele muito rapidamente alcançou realização.
As pessoas dão muitos motivos para não fazerem prática espiritual. Algumas dizem que não acreditam nos ensinamentos; outras sentem que não estão prontas ou que não têm a capacidade necessária. Isso, porém, é um erro. Quer acreditemos ou não no samsara, é aqui que estamos. Quer acreditemos ou não no carma, nós o estamos criando. Quer acreditemos ou não nos venenos da mente, eles estão ai. Que vantagem há em não se acreditar em remédio? Quer estejamos ou não prontos para fazer prática, a morte e as doenças não vão nos esperar. Por que não nos preparar? Por que não desenvolver a capacidade de ajudar a nós mesmos e aos outros? Estamos prontos para beber veneno, mas não para tomar remédio.
Não meditar depois de termos recebido os ensinamentos é como comprarmos todas as nossas comidas preferidas, arrumá-las bem na cozinha, e então não comer. Vamos morrer de fome. Meditar é como comer: nossa despensa está cheia e nós partilhamos daquilo que coletamos.
Em vez de dizer, "Não tenho tempo hoje, amanhã vou meditar. Não tenho tempo nesta semana, vou fazer a semana que vem. Este ano tem sido muito corrido, vou deixar para o próximo ano", precisamos sentir uma necessidade imediata de fazer prática ¿agora mesmo, não apenas hoje, não apenas nesta hora, mas neste exato momento.
Agora, rezo para que a verdadeira natureza de todos os seres, sem exceção, seja revelada, para que cada um de nós veja com clareza a sua verdade inerente e fique livre dos grilhões do sofrimento e das dificuldades impostas pelas limitações da mente.
Vamos dedicar a esse fim todas as virtudes destes ensinamentos, das mudanças que vamos viver por termos sido expostos a estas verdades, e das mudanças que as pessoas á nossa volta vão atravessar por nos verem encarnar o que aprendemos.
Possam essas virtudes se irradiar em todas as direções, em ondas de benefícios.
OS PORTÕES DA PRÁTICA BUDISTA ¿ CHAGDUD Tulku Rinpoche
freeyourmind - 3:28 PM
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Segunda-feira, Junho 26, 2006
A VACUIDADE
Está dito no Madhyamakavatara do Mahasiddha Chandrakirti:
"Não existindo o ator, não existe a ação. Não pode haver um eu de uma pessoa que não existe. Se você que procura a verdade, compreender a vacuidade do eu e do meu, chegará à libertação perfeita"
Estamos preenchidos da sensação de que somos independentes e auto-suficientes, e não de que somos manifestações interdependentes. Essa é a base de todos os nossos problemas e sofrimentos.
Nossa mente comum sente espontaneamente: "Eu existo", "Eu existo". Esse é nosso mantra no nível subconsciente.
Temos uma percepção distorcida da realidade de nosso eu ou ego pois, mesmo tendo conhecimento intelectual de nossa própria morte e impermanência, sentimos nosso eu como completamente independente e permanente. Não conseguimos integrar o conhecimento intelectual de nossa morte e impermanência em nosso coração. Por isso, quando a realidade da impermanência invade nossa fantasia de um mundo e um eu permanentes, vivemos um monte de problemas e sofrimentos. Esse ego independente do qual cuidamos tanto e com o qual nos identificamos cem por cento é, na verdade, uma completa alucinação.
[...]
Pergunta: O que é essa vacuidade de existência intrínseca que temos que compreender?
Resposta: No nível relativo, você pensa que é uma pessoa bonita, sente fome, dorme, trabalha, sente-se só, etc. Entretanto, se você tentar encontrar esse "você" que você acredita tão fortemente existir independentemente de todos os outros fenômenos, perceberá que não pode encontrá-lo. Você pode, por exemplo, dividir seu corpo em muitas partes. Qual dessas partes é realmente você? Não é possível encontrar o que realmente você é. Porém, dentro da relação interdependente corpo-mente, há alguém que existe. Há muito para se falar sobre esse tema. É um assunto muito profundo.
Vacuidade significa vazio de existência intrínseca ou independente. Por isso, no primeiro estágio de meditação no espaço absoluto, tentamos visualizar, imaginar ou identificar claramente como é esse estado de existência concreta. Temos que procurar esse estado para nos convencer por meio da lógica que ele não existe de verdade. Só percebemos isso quando o procuramos.
Sempre começamos esse tipo de meditação usando nossa própria sensação de si mesmo ou ego como a coisa que desejamos fazer desaparecer, pois o impacto emocional de perdermos nosso próprio ego é, ao mesmo tempo, devastador e libertador. Perceber que o ego de outra pessoa é uma fantasia ou que a montanha não existe como parece não tem o mesmo impacto e capacidade de transformar nossas distorções e negatividades mentais. Nosso ego é nosso inimigo numero um e, por isso, precisamos empreender uma guerra impiedosa contra ele.
Uma vez tendo destruído nosso próprio ego com a arma da sabedoria, toda a estrutura de nosso samsara pessoal começa a desmoronar e rapidamente colapsa. O primeiro passo é compreender o que é existência intrínseca independente.
Tchandrakirti, o grande filósofo indiano disse:
"As coisas existirem por si mesmas significa que elas não dependem de outros/fatores para sua existência. Porém, como as coisas realmente dependem de outros/fatores, não pode haver um fenômeno existente por si mesmo".
Isso significa que nós não existimos realmente de uma forma independente. Somos o resultado de muitas causas e condições de surgimento interdependente.
Tchandrakirti também disse:
"Muitas pessoas podem usar o mesmo cavalo para passear. Da mesma forma, quando pessoas diferentes percebem a vacuidade, todas elas percebem a mesma vacuidade".
Muitos grandes yogues antigos como Tchandrakirti chegaram à percepção profunda da vacuidade de existência independente, mas não tinham interesse por desenvolver ou cuidar do mundo externo. Hoje em dia, os cientistas modernos pesquisam a natureza dos fenômenos de uma forma relativa e, como resultado, são capazes de criar muitas coisas no mundo externo.
[...]
NGELSO ¿ AUTOCURA III ¿ Lama Ganchen
freeyourmind - 2:32 PM
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Sexta-feira, Junho 02, 2006
Volto daqui a um mês mais ou menos!
freeyourmind - 3:01 PM
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Terça-feira, Maio 16, 2006
A resposta da escola Madhyamika Prasangika
Se os fenômenos que percebo são projeções de minha própria mente [conforme afirma a escola Mente Apenas], por que então todos percebemos os mesmos fenômenos como a mesma coisa? Vejo um texto envolto num manto cor-de-laranja em frente de Vossa Santidade. Por que todos os demais também vêem isso dessa maneira? Além disso, li que seres dos outros cinco mundos [deuses, semideuses, animais, fantasmas famintos e seres dos infernos] percebem esses fenômenos como coisas diferentes, mas, ainda assim, compartilham uma percepção comum. Por quê?
Segundo a explicação da mais elevada escola filosófica buddhista, a Madhyamika Prasangika, os fenômenos externos não são meras projeções ou criações da mente. Os fenômenos externos têm uma natureza distinta que difere da mente. Dizer que os fenômenos são meros rótulos ou designações significa dizer que eles existem e adquirem suas identidades a partir da denominação ou designação que lhes atribuímos. Isso não quer dizer que não haja fenômenos fora do nome, da imputação ou do rótulo, mas sim que, se analisarmos e procurarmos objetivamente a essência de qualquer fenômeno, será impossível encontrá-la. Os fenômenos são incapazes de resistir a semelhante análise; portanto, eles não existem objetivamente. Contudo, já que existem [relativamente], deve haver algum nível de existência [relativa]; portanto, é apenas através de nosso processo de rotulação ou designação que se diz que as coisas existem [de forma relativa].
Uma vez que os fenômenos não têm uma realidade independente, objetiva, não há um estatuto da existência por parte do objeto; concluímos, portanto, que os fenômenos só existem nominalmente, ou convencionalmente. No entanto, quando as coisas aparecem para nós, não aparecem como meras designações, e sim como se tivessem algum tipo de realidade objetiva ou existência inerente "ali fora". Há, pois, uma disparidade entre a maneira como as coisas aparecem para nós e a maneira como elas existem. É por isso que se diz que elas são ilusórias.
O verdadeiro modo de existência dos fenômenos só pode ser averiguado através de nossa própria experiência, uma vez que tenhamos negado a existência inerente deles. Mas a realidade convencional não pode ser provada pela lógica. Por exemplo, esta mesa existe porque podemos tocá-la, senti-la, pôr coisas sobre elas, e assim por diante; então, ela existe. É só através de nossas experiência direta de um fenômeno que podemos estabelecer a realidade de sua existência.
Os prasangikas falam de três critérios para determinar se algo é ou não existente: [1] isso deve ser conhecido a partir de uma convenção universal; [2] tal convenção não deve ser contestada por qualquer forma de validação; e [3] tampouco deve ser contestada por uma análise definitiva de sua natureza. Qualquer coisa que se enquadre nesses três critérios é considerada convencionalmente existente.
Há muitos tipos diferentes de percepção que podem apreender um único objeto, tal como o manto envolvendo esse texto. Para muitos, ele se mostra laranja, mas, para alguns, a cor laranja pode não aparecer, por causa de uma doença ou outras condições fisiológicas, tal como no caso daqueles que sofrem de daltonismo. Outros seres, por causa de seu karma, não serão capazes de ver esse manto como sendo laranja, do jeito que o vemos.
(Dalai Lama. O mundo do budismo tibetano: uma visão geral de sua filosofia e prática)
freeyourmind - 2:55 PM
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Domingo, Maio 07, 2006
A Interdependência
S.S. o Dalai Lama
Considero particularmente útil o conceito de origem dependente formulado pela escola de filosofia buddhista Madhyamika. De acordo com esse conceito, podemos compreender como as coisas ocorrem de três maneiras diferentes. Num primeiro nível, recorre-se ao princípio de causa e efeito, pelo qual todas as coisas e acontecimentos surgem dependendo de uma complexa rede de causas e condições relacionadas entre si. Sendo assim, nada nem nenhum acontecimento pode vir a existir ou permanecer existindo por si só. Por exemplo, se eu pegar um punhado de barro e moldá-lo, posso fazer um vaso vir a existir. O vaso existe como resultado de meus atos. Ao mesmo tempo, é também o resultado de uma miríade de outras causas e condições. Estas abrangem a combinação de barro e água que forma a matéria-prima do vaso. Em acréscimo, há o agrupamento das moléculas, dos átomos e outras diminutas partículas que formam esses componentes. Em seguida, é preciso levar em conta as circunstâncias que levavam à minha decisão de fazer um vaso. E existem ainda as condições que cooperam ou interferem nas minhas ações à medida que dou forma ao barro. Todos esses diferentes fatores deixam claro que meu vaso não pode vir a existir independentemente de suas causas e condições. Ou seja, ele tem uma origem dependente, sua criação está subordinada a essas causas e condições.
Num segundo nível, a interdependência pode ser compreendida em termos da mútua dependência que existe entre as partes e o todo. Sem as partes, não pode haver o todo e, sem o todo, o conceito de parte não tem sentido. A idéia de todo implica partes, mas cada uma dessas partes precisa ser considerada como um todo composto de suas próprias partes.
No terceiro nível, pode-se dizer que todos os fenômenos têm uma origem dependente porque, quando os analisamos, verificamos que, em essência, eles não possuem uma identidade. Isto pode ser compreendido melhor se pensarmos na maneira como nos referimos a certos fenômenos. Por exemplo, as palavras "ação" e "agente": uma pressupõe a existência da outra. Assim como "pai" e "filho". A pessoa só pode ser um pai se tiver filhos. E um filho ou uma filha são assim chamados apenas como referência ao fato de terem pais. A mesma relação de mútua dependência é vista na linguagem que utilizamos para definir ramos de atividade ou profissões. Determinados indivíduos são chamados de fazendeiros em função de seu trabalho no campo. Os médicos são assim chamados por causa de seu trabalho na área de medicina.
De maneira mais sutil, as coisas e acontecimentos podem ser compreendidos em termos de origem dependente quando, por exemplo perguntamos: o que é exatamente um vaso de barro? Quando procuramos algo que possa ser definido como sua identidade final, verificamos que a própria existência do vaso de barro ¿ e, implicitamente, a de todos os outros fenômenos ¿ é, até certo ponto, provisória e determinada pelas convenções. Quando indagamos se sua identidade é determinada por sua forma, sua função, suas partes específicas (ou seja, ser composto de barro, água, etc.), constatamos que a palavra "vaso" não passa de uma designação verbal. Não há uma única característica que se possa dizer que o identifica. Muito menos a totalidade de suas características. Podemos imaginar vasos de formas diferentes que não deixam de ser vasos. E porque só podemos realmente falar de sua existência em relação a uma rede complexa de causas e condições, se o encararmos segundo esta perspectiva, o vaso não tem de fato nenhuma propriedade que o defina. Em outras palavras, não existe em si ou por si, mas é antes de tudo originariamente dependente.
Vemos que, no final, não conseguimos compreender o conceito de percepção a não ser dentro do contexto de uma intricada e imprecisa série de causas e condições.
Uma outra maneira de compreender o conceito de origem dependente é considerar o fenômeno do tempo. Em geral, presumimos que há uma entidade com existência independente a que chamamos de tempo. Falamos de tempo passado, presente e futuro. Entretanto, quando examinamos melhor o assunto, vemos que esse conceito também é uma convenção. Verificamos que a expressão "momento presente" é apenas um rótulo que indica a interface entre os tempos "passado" e "futuro". Não podemos na realidade localizar com precisão o presente. O passado está apenas uma fração de segundo antes do suposto momento presente; apenas uma fração de segundo depois está o futuro. No entanto, se dissermos que o momento presente é "agora", assim que acabarmos de pronunciar esta palavra ele já estará no passado. Se sustentássemos que, mesmo assim, deve haver um único momento indivisível pelo passado ou pelo futuro, não haveria nenhuma razão pra separarmos presente, passado e futuro. Se houvesse um único momento indivisível, só teríamos o presente. Sem o conceito de presente, porém, fica difícil falar de passado e futuro já que ambos sem dúvida dependem do presente.
Além do mais, se nossa análise nos fizesse concluir que então o presente não existe, teríamos de negar não só uma convenção mundial, como também a nossa própria existência. De fato, quando começamos a analisar nossa experiência com relação ao tempo, vemos que o passado desaparece e o futuro ainda está para chegar. Experimentamos apenas o presente. E o presente só toma forma como dependente do passado e do futuro.
(Dalai Lama. Uma Ética para o Novo Milênio. Traduzido por Maria Luiza Newlands.
Rio de Janeiro: Sextante, 2000. Pág. 47-51.
freeyourmind - 1:28 AM
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Quarta-feira, Maio 03, 2006
A escola da Mente Apenas (sânsc. Chittamatra, também conhecido como Yogachara e Jnanavada) discorda da caracterização que a escola do Caminho do Meio (sânsc. Madhyamika) faz do não-eu como a ausência de existência intrínseca ou de identidade intrínseca. Seguidores dessa escola baseiam suas objeções no raciocínio de que, se negarmos esses aspectos, o princípio de origem dependente, que é tão fundamental para a filosofia buddhista, passa a ser insustentável. Se quisermos manter um entendimento coerente da origem dependente, aos seus olhos, devemos aceitar a existência de coisas que interagem entre si e que dependem umas das outras. Por isso, eles argumentam que as coisas devem ter existência intrínseca ou natureza intrínseca.
Tendo em vista sua oposição à total rejeição da existência intrínseca por parte dos seguidores de Madhyamaka, a escola da Mente Apenas precisa encontrar um modo de interpretar passagens nos Sutras da Perfeição da Sabedoria (sânsc. Prajnaparamita) que aparentemente corroboram a visão Madhyamaka. Isso eles fazem por meio da sua teoria das Três Naturezas.
De acordo com ela, a ausência de identidade intrínseca deve ser entendida de modo diferente em contextos diferentes. Há uma natureza de fenômenos que é meramente imputada por nossa mente e que, portanto, é mera construção do nosso pensamento. Essa, segundo a escola da Mente Apenas, é a natureza imputada (sânsc. parakalpita). Diz-se que essa natureza imputada seria desprovida de características intrínsecas. Em segundo lugar, existe a natureza dependente (sânsc. paratantra) dos fenômenos, que possuem, sim, uma natureza intrínseca mas são carentes de produção independente. Isso quer dizer que eles não surgem por si mesmos; pelo contrário, surgem em conseqüência de outras causas e condições. A terceira natureza chama-se natureza essencial (sânsc. parinispanna), que é descrita como "vazio". Diz-se que essa é desprovida de identidade absoluta.
A escola da Mente Apenas afirma que essas três naturezas são universais, o que significa, por definição, que se estendem a todos os fenômenos. Cada fenômeno possui uma natureza dependente, uma natureza imputada e uma natureza essencial. E ainda, essas três naturezas são intimamente vinculadas ¿ a natureza dependente é a base sobre a qual projetamos nossas construções mentais; a realidade independente que tendemos a conceber em relação a objetos dependentes é a natureza imputada; e a ausência de realidade desse construto é a realidade essencial. Portanto, a natureza dependente é a base, a natureza imputada é o construto que projetamos, e a realidade essencial é o vazio desse construto.
[...]
No 26º capítulo da Sabedoria Fundamental do Caminho do Meio (sânsc. Mulamadhyamakakarika), no qual examina os doze elos da origem dependente, o mestre do Madhyamaka, Nagarjuna, esforça-se ao máximo para defender a rejeição da existência intrínseca por parte da escola do Caminho do Meio, alegando não ser ela niilista. Existe, portanto, uma enorme diferença entre o vazio e o mero nada, bem como entre a negação da existência intrínseca e a negação da existência como um todo.
(S.S. o Dalai Lama. Transformando a mente: ensinamentos sobre como gerar a compaixão.
Tradução para o inglês de Geshe Thupten Jinpa, organização de Dominique Side e Geshe Thupten Jinpa,
tradução de Waldéa Barcellos. São Paulo: Marins Fontes, 2000. Pág. 113-119.
freeyourmind - 6:42 PM
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Domingo, Abril 16, 2006
Conclusão
Libertar a mente significa ter uma mente não detida, uma mente que não é "fixa".
Libertar a mente significa,portanto, adquirir o estado de "não mente", que os zen-budistas chamam de mushin.
Essa não-mente também é um estado de não-refletir.É o outro gume da espada.
O Buda nos pede para refletir, mas também nos instrui sobre como libertarmos da reflexão.
Esse não-refletir leva à libertação da mente.[...]
Libertar a mente é possível quando rompemos a barreira da racionalização e reflexão,
quando reconhecemos os limites da razão e percebemos que toda razão e lógica
colidem inevitavelmente com um muro de tijolos.Esse é o verdadeiro som da inevitabilidade.
A barreira da reflexão é rompida quando Neo experimenta a não-mente, ou o não-refletir.
Quando uma bala disparada pelo agente Smith o atinge no coração e ele "morre",
Trinity imediatamente abandona o medo e revela seu amor por Neo.Isso o ressucita.
O abandono do medo, um produto da reflexão, é uma centelha que emana dela e dá poder
a ele para abandonar também suas antigas dúvidas e despertar de novo, porque agora ele realmente acredita que é o "Escolhido".
A crença de Trinity em si mesma afeta a crença de Neo em si mesmo.Além disso, as crenças de ambos são um abandono do medo e da dúvida que acompanham suas mentes detidas por reflexão.Só quando abandonamos a mente é que podemos libertá-la.E só quando a libertamos é que libertamos a nós mesmos.
No espelho budista, a mente é a suprema matriz. A mente nos escraviza quando nos tornamos apegados à ilusão; quando nos convecemos de que o mundo que vemos e sobre o qual refletimos é o mundo real.[...]"
(Idem)
freeyourmind - 5:17 PM
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Terça-feira, Abril 04, 2006
(continuação)
Não Refletir
"Entretanto, esse tipo de reflexão, essa atividade mental, é uma faca de dois gumes.
Por um lado, uma reflexão e um questionamento cuidadosos são necessários.Em toda a sua vida, Neo jamais aceitou coisa alguma sem questionar.
Ele desconfia que as coisas não estejam muito certas.Ele pergunta a Chois:"Você já teve aquela sensação de não saber se está acordado ou ainda sonhando?" Trinity identifica-se com esse sentimento de deslocação.. "Eu sei porque você dorme mal, porque mora sozinho e porque passa noite após noite na frente do computador.Você está procurando por ele.Eu sei, porque já procurei pela mesma coisa".E antes de Neo ser "desgrampeado", ela o lembra:"Você conhece essa estrada.Você sabe exatamente onde ela termina.E eu sei que não é onde você quer estar".
Na primeira vez que se encontram, Morpheus diz a Neo:"Você tem o aspecto de um homem que aceita o que vê porque está esperando acordar...Você está aqui porque sabe alguma coisa...Sentiu isso a vida toda.Que há algo errado com o mundo.Não sabe o que é, mas está lá, como um espeto na mente, deixando você louco".
Por outro lado, os ensinamentos budistas nunca se cansam de nos alertar que é a mente que cria os "espetos".Ela pode nos levar por todos os tipos de desvios.
A mente pode ser nosso pior inimigo.
Considere a luta instrutiva( ou kumite, em japonês) entre Neo e Morpheus.Essa cena demonstra claramente o poderoso papel da mente nas artes marciais.
Por mais habilidoso que Neo tenha se condicionado a ficar, Morpheus ainda o derrota, no começo.Por quê?Morpheus lhe diz:" a sua fraqueza não é sua técnica".
A fraqueza de Neo,seu inimigo, não está na força e rapidez de Morpheus.Afinal de contas, a kumite ocorre dentro da Construção.
Morpheus desafia Neo:"Você acredita que o fato de eu ser mais forte ou mais rápido tem a ver com músculos nesse lugar?Você acha que está respirando ar agora?" Sem dúvida, é a mente de Neo que derrota o próprio Neo.
Tudo é uma questão de libertar a mente.Libertar a mente significa não permitir que ela "pare" em lugar algum.
O célebre monge zen Takuan Soho(1573-1645) chama a mente não-liberta de "mente detida".
Takuan Soho instruiu os dois mais renomados espadachins do Japão, Miyamoto Musashi e Yagyu Munenori.Em seu "Misterioso registro de sabedoria imutável"(Fudochishinmyoroku), ele alerta Yagyu que deter a mente resultaria em desastre:
Quando você nota pela primeira vez a espada que está se movendo para atacá-lo, se pensa em rebatê-la do jeito que ela vem, sua mente parará a espada naquela posição, seus movimentos serão cancelados e você está derrubado pelo oponente.É isso que significa parar.
A mente "para" quando ela pensa, em vez de saber; quando tenta algo, em vez de abandonar algo.Morpheus incita Neo: "Pare de tentar me atingir e me atinja".
A mente pára quando se coloca a uma distância do corpo.Quando ela pára, não está unida ao corpo.
Nas artes marciais, libertar a mente significa criar uma ponte entre si mesmo e o adversário.Pois não existe adversário, assim como não existe colher.
Nesse sentido, o encontro de Neo com o Oráculo mostra a inabilidade de Neo para libertar a mente.Apesar de aperfeiçoar as técnicas envolvidas em seu treinamento, que é essencialmente um treinamento espiritual, ele ainda tem dúvidas e temores sobre sua própria natureza.
Lembre-se de que o Oráculo nunca diz que Neo não é o "Escolhido" ,Neo é quem diz isso.O Oráculo age como um espelho para a mente desconfiada, detida de Neo."(Bem vindo ao deserto do real-W.Irwin)
freeyourmind - 6:55 PM
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Sábado, Março 18, 2006
Voltemos à instrução do Buda ao seu filho e consideremos o segundo significado que ele atribui ao espelho, simbolizando o ato mental de refletir, examinar, pensar bem nas coisas.Ele ensina ao filho que uma cuidadosa reflexão deve preceder a ação.Mais importante, ele alerta Rahula para não agir sem estar ciente do impacto de sua ação sobre todas as outras coisas.
Se você, Rahula, refletir assim, "aquele ato que desejo fazer com o corpo é um ato do meu corpo que levaria ao mal de mim mesmo e dos outros, e ao mal de ambos; esse ato do corpo é impróprio, seu fruto é angústia"-um ato do corpo assim, Rahula, você certamente não deve fazer."
Vemos aì a mais vital sustentação do budismo, a idéia da origem dependente, ou pratityasamutpada.A origem dependente significa, essencialmente, que todas as coisas na vida estão ligadas, de modo que há uma interconexão natural entre tudo.Portanto, nada é independente e separado.
Sendo assim, nada é permanente, de acordo com a doutrina budista nem mesmo um "eu".Entretanto, nós ainda temos a tendência de nos apegar Às idéias de permanência e "eu", e isso produz sofrimento, ou dukkha.Dukkha significa literalmente "deslocação".Temos aqui três sinais budistas:anicca(tudo muda), anatman(não existe "eu") e dukkha(sofrimento é universal).O Buda lembra ao filho que, por causa da interconexão entre todas as coisas, nossas ações têm impacto sobre as outras pessoas, e precisamos refletir antes de agir.(CONTINUARÁ...)
freeyourmind - 2:47 PM
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